Criticar, por Eduardo Gatto

 

Olá a todos! Hoje trazemos para vocês um texto que tem muito a ver com a vivência do músico, que sempre expõe seu trabalho, que é sua vida, a julgamento alheio, mas também nos remete a questões de julgamento em qualquer âmbito de convivência. O texto nos mostra um outro olhar sobre a crítica, buscando a origem e a trajetória de seu tratamento pelos europeus que influenciaram nossa própria maneira de criticar. Aproveitem a leitura...

 

Criticar e crítica são entendidos como conceitos usuais que se distendem do uso corriqueiro ao especializado. Na cultura ocidental detém-se certo domínio que veladamente se dispõe a respeito do que dizem tais palavras. Para nós hodiernos a crítica, como questão, apresenta-se pelo juízo, julgamento, onde se impõem vereditos e árbitros, sendo esses últimos não mais as testemunhas invisíveis sem interesse, que por uma pretensa imparcialidade podem emitir juízo1. Hoje ao árbitro é conferido o poder.

Atualmente, nas questões mais usuais criticamos atitudes e posições do outro, tomando como valor o que compreendemos enquanto o mais adequado em determinadas situações. Assim, o tempo todo julgamos, mesmo quando não externamos esse processo e ele acontece apenas internamente. Acontece que, como homens, o somos já pela experiência e nos encontramos em nossa própria condição desde o que o real nos revela enquanto alteridade. Medimo-nos constantemente com o outro, inclusive o outro que nós mesmos somos.

Originariamente medir para nós não se refere a cálculo, é claro que todo cálculo se sustenta no medir, mas a precisão do cálculo é apenas uma consequência possível do medir como questão. Medir refere-se antes a postar-se frente a frente com o outro, colocando-se na condição de máxima oposição para assim perceber o outro e a si mesmo. A condição de medir-se já nos possibilita estar à disposição da diferença e de apropriarmo-nos de nossa identidade. Um mundo culturalmente irrompe desde o sustento próprio do real que nos condiciona um sem fim de possibilidades, essa multiplicidade latente e patente é reunida pela unidade que o real é, e nela nos encontramos lançados e jogados em nós mesmos que já o somos também por tudo o que não somos. Medir-se com o outro, portanto, faz parte de nós, fortalece nossa condição, faz-nos reencontrarmo-nos em nós mesmos, porque somos também por e pela alteridade, ela nos forma, conforma e reforma continuamente.

Formamo-nos pelo incessante medir, assim, constantemente julgamos e re-julgamos, medimos e re-medimos, valoramos e re-valoramos, para ressaltar nossas diferenças e com elas transformarmos a nós mesmos na incessante e paradoxal dinâmica de permanecer o que somos. Criticar, portanto, nos é natural desde uma tomada de posição, nós nos postamos e somente assim podemos ser, pois o somos ao modo de nos dispormos pela posição que nos impõe o real. Impostos e dispostos pela posição que nos é dada, nos medimos constantemente, abertos à alteridade e a nós mesmos. Possuímos e sofremos a condição de habitar a possibilidade de ver e dizer o real naquilo que ele é desde o que ele não é. A crítica e sua dinâmica de criticar, dessa posição que imposta e disposta nasce, assim nos provém enquanto se dispõe desde o medir.

Criticar é próprio e natural ao homem como forma de fortalecer a si mesmo em sua posição e postura. Assim o criticar fortalece, constrói, não apenas pelo entendimento rasteiro da expressão “crítica construtiva”, pois na verdade isso é apenas um pleonasmo, toda crítica já é construtiva posto originariamente fortalecer e construir uma posição e uma postura, enquanto sustenta o próprio pelo outro. Assim, toda crítica já é originariamente ética por estar em referência direta com o modo de ser do homem enquanto disposto e imposto em sua postura desde o real, sendo que, construindo e fortalecendo tal postura, ela, desde a medida, constrói e fortalece o próprio homem em si mesmo. Assim a crítica é de alguma forma parte de nós enquanto construímos nossa postura, ao mesmo tempo em que já e também somos o outro sem com isso perdermos nossa identidade. Pelo contrário, sendo também o outro é que chegamos ao paradoxo de nós mesmos, uma chegada sem fim que se destina ao incessante crescer e construir que somos.

Etimologicamente, a noção de criticar advém do verbo grego krínó que, dentre vários sentidos diz também separar, decidir, distinguir, discernir2. A etimologia corrobora com o exposto anteriormente na perspectiva do medir como tomar posição frente à alteridade. Toda seleção enquanto reunião somente assim é possível, respondendo à reunião, desde o um que a tudo reúne como real, esse que Heráclito também nos traz pela questão do logos3. Portanto, a separação que pode por critérios acontecer, assim o faz enquanto um distinguir, um discernir que nos é dado habitar por nos encontrarmos na condição de medir o outro. Medindo o outro desde a medida originária do real podemos então distinguir, separar e reunir. Pode-se entender essa ligação com o logos de forma estranha, pois entendendo-se o logos, desde seus múltiplos sentidos ao longo da tradição ocidental, como reunião, como este poderia se dar ao separar e distinguir? Toda separação e critério somente podem ocorrer enquanto a reunião da seleção assim permite, separar e distinguir já é medir pela diferença e assim agrupar e reunir, que já nos condiciona e impõe o próprio real.

A concepção moderna de julgamento ocorre já como uma decorrência da experiência romana, o estabelecimento de valores e de um juiz que recebe o poder e o direito de proferir uma sentença que pode salvar ou condenar e punir. A deturpação dos valores que se dispõem desde a morada do homem em sua postura pela imposição e disposição do real enquanto o que dá conta do ético, acabam por se perverter condicionados em uma escala de negatividade ou positividade. A própria cultura do ocidente assim se deturpou e lançou à crítica, que originariamente constrói enquanto proveniente do medir que nos permite o próprio real como reunião, ao patamar de valores escalares calculados pela utilidade e serventia. Criticar originariamente forma e transforma, mas hoje, pelos caminhos da cultura em que nos inscrevemos, ela serve. Na serventia da disponibilidade, criticar dispõe-se ora em uma ou outra posição sempre reposicionada pela valoração utilitária. Críticas positivas e negativas apenas se sustentam pela instituição valorativa escalar e meramente servil que já fazem o homem se perder entre os falsos poderes, na ilusão da consciência e da subjetividade e no pretenso domínio do real, na perda da condição de admirar-se ante a maravilha do que é, anestesiando-se perante a artificialidade que copta os sentidos da sensibilidade lançando-nos na pura sinestesia que reforça cada vez mais a posição do eu. O ético deixa de ser o caminho e a morada do homem desde o real para si mesmo e passa a servir na busca desenfreada em remediar o que se sustém sem controle e que controla o homem dispondo-o a servir ao que planetariamente domina a atualidade.

1 BENVENISTE, E. O vocabulário das instituições indo-europeias. 2 Vols. Trad. Denise Bottmann, Campinas: Editora da Unicamp: 1995, Vol II, p.121-123.

2 Cf. HOUAISS, A. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 2.0a. Editora Objetiva, 2007, verbete critic-. Cf. também BAILLY, Anatole. Dictionnnaire Grec Français. Paris: Hachette, 2000, p. 1137. Cf. ainda CHANTRAINE, Pierre. Dictionaire Étimologique de la Langue Grecque: Hitoire des Mots. Paris: Éditions Klincksiecke, 1968, p. 584-585.

3 Fragmento 50: “Auscultando não a mim mas o Logos, é sábio concordar que tudo é um”. In: ANAXIMANDRO, PARMÊNIDES e HERÁCLITO. Os pensadores originários – Anaximandro, Parmênides e Heráclito. Ed. Vozes: Petrópolis, 1999, p. 71.