Sobre o Flamenco, por Luciano Camara

Olá a todos ligados em nosso blog, 

Hoje apresentamos um texto de Luciano Camara, esclarecendo alguns detalhes sobre as origens da música flamenca, cultura tão singular e importante para o desenvolvimento de técnicas amplamente utilizadas no violão... esperamos que gostem...

Sobre o flamenco

Em texto postado em nosso blog, Fábio Nin abordou uma técnica violonística essencial à execução do violão flamenco: os rasgueos. O violão flamenco – ou guitarra flamenca, como falado em espanhol e termo que doravante utilizaremos para facilitar sua distinção do violão de cordas de nylon, ligado ao repertório de concerto e também popular como vemos no choro – é possuidor de características sonoras específicas. Tais características decorrem não apenas de singularidades em sua construção (como escolha de madeiras, caixas acústicas geralmente com tamanho reduzido, altura das cordas em relação ao braço do instrumento...) mas também do modo de tocar, com técnicas de mão direita peculiares, como os já citados rasgueos e outras como a alzapúa e os picados.

O flamenco é comumente tomado como referência da música popular produzida na Espanha. Mas na verdade a cultura espanhola (e com isso suas músicas), apresenta uma diversidade muito grande, espelhando a própria construção do país e as diferentes regiões que o integram.

As formas de execução de cada técnica e os diferentes resultados sonoros podem gerar muito material sobre os quais podemos discorrer futuramente. Mas creio que de início, como este é o primeiro texto que envio ao blog, possa ser interessante nos determos sobre a história do flamenco e de sua música, que me interessam há, no mínimo, vinte anos. Falemos então do termo “flamenco” em si, assim como de algumas referências históricas que podemos encontrar.

O reino da Espanha é divido em territórios autônomos, que podem ser cidades, comunidades, ou principados. A descentralização do governo foi uma medida adotada na Constituição de 1978, no pós-franquismo. De certa forma contribuiu para amenizar as reivindicações separatistas de vários grupos, principalmente os de língua distinta ao idioma oficial, o castelhano (como ocorre entre setores da população basca e catalã). Embates e disputas culturais ocorrem não só entre as Comunidades Autônomas da Espanha, mas no interior delas mesmas. O próprio conceito de flamenco – filosofia de vida para uns, ganha-pão para outros, forma de arte em alguns ouvidos, música estranha em outros – é alvo de disputas dentro da região que é considerada por todos os autores consultados o criadouro do flamenco. Estamos nos referindo à porção mais meridional do país, a Andaluzia.

A população resultante do convívio dos habitantes locais com vários povos (fenícios, judeus, celtas, gregos, romanos, godos, visigodos...) em diferentes períodos históricos recebeu uma nova invasão a partir do ano 711 da era cristã: povos muçulmanos tomaram a península ibérica a partir do norte da África. O fim do domínio muçulmano, marcado pela queda de Granada, só ocorreria em 1492: com a vitória dos reis católicos Fernando e Isabel de Castilla terminam as guerras da Reconquista e inicia-se a unificação do reino espanhol. Mas a presença dos mouros, como eram chamados os povos do norte africano, deixaria marcas culturais indeléveis na região, alterando costumes e introduzindo novas tecnologias, formas de relação social e novo vocabulário. A região da Andaluzia herdaria seu nome da maneira árabe de designá-la: “Al-andalus”. Vários topônimos da península ibérica guardam essa herança moura.

Não existe consenso, entre diversos pesquisadores que debatem o tema, sobre as origens do flamenco. A origem do próprio termo, flamenco, é obscura e a oralidade característica em sua transmissão colabora para isso. Como escreve Hernandez (2006)1 os primeiros escritores a mostrarem interesse sobre o gênero só são encontrados a partir do séc. XIX. Até então toda a informação e transmissão do flamenco entre as diferentes gerações se dava oralmente, em geral entre parcelas pobres da população meridional espanhola e em especial entre os ciganos, uma comunidade muito zelosa de seus costumes e que sofreu perseguições desde sua chegada à Espanha, no séc. XV. Algumas hipóteses para a etimologia são citadas, mas como Hernandez ressalta, todas carecem de fundamento, e servem mais como dados pitorescos sobre o estilo: alguns autores levantam a possibilidade de que o canto melismático se assemelharia muito ao dos judeus que, devido a decretos dos reis católicos e com a chegada da Inquisição, foram obrigados a abandonar a Espanha dirigindo-se a outros reinos, como os reinos flamengos (em espanhol flamencos). O “cantar flamenco” seria aquele que se assemelharia ao desses expatriados. Outra hipótese seria a do termo ser derivado de uma expressão árabe “felah-mengu”, que significaria “camponês errante”, ou “camponês fugido”. Uma terceira hipótese diz que as camadas pobres da população andaluza confundiam os grupos ciganos que adentravam o reino como oriundos da Alemanha e classificam igualmente alemães e pessoas oriundas de Flandres: “flamencos” (na língua espanhola). Uma quarta viria do fato de que respeitados cantores contratados pelo rei espanhol Carlos V eram oriundos de Flandres, ou seja, eram “flamencos” segundo sua origem geográfica. Posteriormente uma associação teria surgido nas camadas populares entre a função de cantor (e o ato de cantar bem) e o termo flamenco.

Como dito anteriormente: nenhuma explicação é fundamentada, pois carecem de materialidade histórica. Mas as quatro tentativas apresentam o ponto comum entre todos os autores consultados pelo autor: que o flamenco teria germinado do amálgama de diversas culturas. É desse amálgama que surge também a guitarra espanhola e sua variante flamenca. Esperamos poder continuar a abordar o tema e a música que o cerca em novas oportunidades! Deixaremos junto a este texto indicações de bibliografia para quem quiser saber mais sobre o assunto. Algumas estão disponíveis on-line: é só dar uma busca. Um abraço.

Luciano Camara.

 

AUTENRIETH, Mathew Machin. Andalucía flamenca: music, regionalism and identity in Southern Spain. Tese (Ph.D. em Etnomusicologia), Cardiff University, 2013.

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